Através de um vidro, cientistas testemunham emocionados o nascimento do primeiro suíno clonado da América Latina, em uma granja no interior de São Paulo. Às 10h da manhã ensolarada do dia 24 de março, o feito inédito do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante (CCD Xenotransplante), sediado na Universidade de São Paulo (USP), lança uma luz de esperança a quem está na longa fila de espera por transplantes no Brasil e ao redor do globo.
O maior sistema público de transplante do mundo enfrenta um gargalo crucial: a escassez de órgãos para atender os 84 mil brasileiros aguardando por uma segunda chance de viver. Segundo o Sistema Nacional de Transplantes, a cada 3h um paciente morre porque um órgão compatível não chegou a tempo. Agora, estamos cada vez mais perto de uma alternativa inovadora e promissora, o xenotransplante.
O transplante de órgãos entre diferentes espécies tem sido investigado como uma tecnologia para aumentar a disponibilidade de órgãos por pesquisadores do CCD Xenotransplante, iniciativa apoiada pela FAPESP e também pelo CNPq, FINEP e Ministério da Saúde e liderada pelo Genoma USP e Faculdade de Medicina da USP em parceria com o Instituto de Zootecnia (IZ) e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).
Poucos grupos no mundo estão conseguindo avançar com a produção de suínos para xenotransplante. Viabilizá-los exige tanto modificações genéticas para evitar a rejeição do órgão pelo sistema imunológico humano quanto a produção de clones que assegurem essas novas características nos animais designados para iniciar e manter o rebanho. Nos EUA e na China, estudos pré-clínicos e clínicos já estão em andamento – diversos pacientes já receberam o transplante de órgãos como rim, coração e fígado e estão sendo monitorados.
Em 2020, um grupo de pesquisadores do Instituto de Biociências e da Faculdade de Medicina da USP iniciou uma jornada para implementar a tecnologia no Brasil, visando atender à demanda do SUS e evitar uma futura dependência externa no fornecimento de órgãos. A princípio, os cientistas focam nos órgãos que perfazem 94% da demanda do SUS – rim, coração, córnea e pele – e pretendem expandir a lista ao longo da operação.
O grupo de pesquisa da USP ousou ao desenvolver o projeto desde o marco zero em diversas frentes simultâneas. Em um curto espaço de tempo, o Genoma USP conseguiu produzir as células de suínos geneticamente modificadas. Foram retirados três genes suínos (GGTA1, CMHA e B4GALNT2) para impedir rejeição hiperaguda, o que evita a destruição do órgão nas primeiras horas ou dias após o transplante. O grupo planeja ainda a inserção de sete genes humanos para aumentar a compatibilidade e evitar rejeição tardia.
A FMUSP já fez a adequação de técnicas cirúrgicas e manejo de órgãos suínos desde a captação passando pela logística de transporte até o transplante. Com o auxílio do IZ, foram estabelecidos rigorosos protocolos animais para monitoramento da saúde e bem-estar. Em parceria com o IPT, foram construídas as primeiras instalações da América Latina para produção de suínos para xenotransplante, estruturas com altíssimo controle sanitário e de bem-estar em conformidade com todas as exigências regulatórias.
Nos últimos 3 anos, o grupo de pesquisadores dedicou-se a implementar a clonagem suína, técnica com baixíssima chance de sucesso. A cada 100 embriões obtidos por clonagem e transferidos para as fêmeas, nasce apenas uma fração de 1% a 5%. No Brasil, o clima tropical adiciona uma camada de complexidade ao delicado processo reprodutivo, já que a maior parte dos animais de produção são de linhagens europeias adaptadas a climas temperados. A clonagem era a última técnica necessária para gerar os órgãos xenogênicos para testes pré-clínicos e clínicos no Brasil.
O próximo passo imediato é iniciar a produção dos clones suínos geneticamente modificados. Os cientistas ainda aguardam a liberação de recursos de agências de fomento e buscam apoio financeiro para que as atividades não sejam interrompidas, evitando a perda de equipe, estrutura e conhecimento acumulado.
Por meio de parcerias estratégicas, o grupo também espera expandir o acesso aos órgãos para pacientes em outros países da América Latina.
Contato de Imprensa
Andréa Grieco, comunicadora de ciência do Centro de Estudos do Genoma Humano do IB-USP (Genoma USP)
E-mail: deagrieco0@gmail.com



