As distrofias musculares congênitas formam um grupo heterogêneo de doenças musculares caracterizado clinicamente pela presença de hipotonia neonatal, atraso no desenvolvimento motor, grau variável de contraturas articulares, e possível associação com anormalidades no sistema nervoso central ou olhos. O quadro clínico tende a ficar estável, mas alguns pacientes apresentam uma evolução clínica lenta e progressiva. Pode ocorrer também comprometimento respiratório e da deglutição.
Na chamada “forma clássica”, os pacientes geralmente não apresentam comprometimento da inteligência, mas apresentam alterações da substância branca do cérebro observadas por exames tomográficos ou por ressonância magnética. A maioria dos pacientes com distrofia muscular congênita causada pela deficiência de merosina (distrofia congênita merosina-negativa) nunca chega a andar.
As diferentes variantes de distrofia muscular congênita foram organizadas em categorias específicas, com base nas principais características clínicas e em função dos defeitos genéticos e bioquímicos primários. Foram identificados dez genes que causam formas específicas de distrofias congênitas, mas se acredita em uma heterogeneidade ainda maior.
Atualmente, a classificação internacional reconhece as seguintes categorias de genes responsáveis pela doença:
1. Genes codificadores das proteínas estruturais da membrana basal ou matriz extracelular das fibras musculares esqueléticas: genes do colágeno VI, cadeia alfa-2 laminina e alfa-7 integrina.
2. Genes codificadores de glicosiltransferases demonstrados e candidatos que afetam a glicosilação da alfa-distroglicana, uma proteína de membrana externa da membrana basal: genes POMT1, POMGnT1, fukutin, fukutin-related protein, Large.
3. Selenoproteína-1, que codifica uma proteína do retículo endotelial de função desconhecida.
| Miopatia | Tipo | Herança | Cromossomo | Gene | Proteína | MIM |
| Com deficiência de merosina | MDC1A | AR | 6q22-q23 | LAMA2 | alfa2-laminina | 607855 |
| MDC1B | AR | 1q42 | 604801 | |||
| Fukuyama | FCMD | AR | 9q31-q33 | FCMD | fukutin | 253800 |
| Com defeito de glicosilaçao | MDC1C | AR | 19q13.33 | FKRP | Fukutin-related protein | 606612 |
| MDC1D | AR | 22q12.3 | LARGE | Glicosiltranferase-like | 608840 | |
| Walker-Walburg syndrome | CMD1X | AR | 9q31-q33 | FCMD | fukutin | 236670 |
| WWS | AR | 9q34.1 | POMT1 | Protein-O-mannosyltranferase 1 | 607423 | |
| WWS2 | AR | 14q24.3 | POMT2 | Protein-O-mannosyltranferase 2 | 607439 | |
| WWS3 | AR | 19q13.33 | FKRP | Fukutin-related protein | 606596 | |
| WWS | AR | 1p34.1 | POMGNT1 | O-linked mannose beta1,2-N-acetilglucosaminultranferase | 606822 | |
| Muscle-eye-brain sindrome | MEB | AR | 1p34.1 | POMGNT1 | O-linked mannose beta1,2-N-acetilglucosaminultranferase | 253280 606822 |
| MEB | AR | 19q13.33 | FKRP | Fukutin-related protein | 606596 | |
| MEB | AR | 14q24.3 | POMT2 | Protein-O-mannosyl- tranferase 2 | 607439 | |
| Síndrome da espinha rígida | RSMD1 | AR | 1p36.13 | SEPN1 | Selenoproteina N1 | 602771 606210 |
| Síndrome de Ullrich | UCMD | AR | 21q22.3 | Col6a1 | Cadeia alfa1-colageno VI | 254090 120220 |
| UCMD | AR | 21q22.3 | Col6a2 | Cadeia alfa2-colageno VI | 120240 | |
| UCMD | AR | 2q37 | Col6a3 | Cadeia alfa3-colageno VI | 120250 | |
| Bethlem myopaty | AD | 21q22.3 | Col6a1 | Cadeia alfa1-colageno VI | 158810 | |
| AD | 21q22.3 | Col6a2 | Cadeia alfa2-colageno VI | 120240 | ||
| AD | AD | Col6a3 | Cadeia alfa3-colageno VI | 120250 | ||
| AR | 2q37 | Col6a3 | Cadeia alfa3-colageno VI | 120250 | ||
| CMD com defeito de integrina | AR | 12q13 | ITGA7 | Precursor da integrina alfa7 | 613204 |
A maioria das distrofias musculares congênitas é de herança autossômica recessiva. Assim, os pais de um afetado são portadores heterozigotos da mutação responsável pela doença e têm 25% chance de ter outro filho afetado em cada gravidez.
CEGH – 30917966 ramal 15
que profissional atende : Dra. Rita Pavanello
Pesquisador responsável: Dra. Mariz Vainzof
O diagnóstico de grande parte das distrofias musculares congênitas é estabelecido por biópsia muscular.
Em crianças com história de hipotonia e fraqueza muscular já evidente ao nascimento, ou logo nos primeiros meses de vida (principalmente naquelas com inteligência normal), é importante que se estabeleça um diagnóstico diferencial entre a distrofia muscular congênita e a atrofia espinhal progressiva do tipo I (ou doença de Werdnig-Hoffmann), causada por deleções (perda de DNA) no gene SMN. O exame de DNA para a pesquisa de deleção no gene SMN possibilita essa diferenciação, poupando a criança da realização de uma biópsia muscular desnecessária. Caso não se encontre deleção no gene SMN, é importante excluir o diagnóstico de síndrome de Prader-Willi (também por análise de DNA), doença em que ocorre hipotonia nos primeiros meses de vida.