Informações Gerais

Informações Gerais

Em primeiro lugar…

A equipe do Centro de Estudos do Genoma Humano (CEGH) e do Instituto Nacional de células-tronco em doenças genéticas desenvolve várias linhas de pesquisa relacionadas ao uso de células-tronco (CT) e terapia celular em doenças neuromusculares, síndromes e malformações congênitas craniofaciais —. Além disso, em 2009, foi iniciado o Instituto Nacional de Células-Tronco em Doenças Genéticas e o Centro de Terapia Celular em doenças neuromusculares, neurodegenerativas e craniofaciais, ambos vinculados ao CEGH. A terapia celular com células-tronco poderá ser o futuro da medicina regenerativa.

Esses estudos, no entanto, estão ainda em fase de pesquisa e no momento são realizadas somente em modelos animais. Eles são muito promissores, mas ainda não permitem a aplicação a seres humanos. Não estamos convocando ou envolvendo pacientes em tratamentos. Não há filas. O trabalho continuado de pesquisa nesse campo, realizado por cientistas de todo o mundo, poderá resultar em tratamento. Há esperanças; mas, por enquanto, não é possível definir prazos.

Nesta página, a equipe do CEGH reunirá informações precisas e sempre atualizadas sobre as pesquisas com células-tronco, com o objetivo de esclarecer a todos os pacientes que nos acompanham nessa batalha.

O que são células-tronco embrionárias?

Voltemos agora à nossa primeira célula, resultante da fecundação do óvulo pelo espermatozóide. Ela logo começa a se dividir: em duas; essas duas em quatro; as quatro em oito e assim por diante. Pelo menos até a fase de oito células, cada uma delas é capaz de se desenvolver em um ser humano completo. São chamadas, por isso, de totipotentes. Passadas 72 horas desde a fecundação, o embrião – agora já com cerca de 100 células, é chamado de blastocisto.

Nessa fase as células do embrião se diferenciam em dois grupos: um grupo de células externas, que originam as estruturas extra embrionárias associadas à implantação do embrião e com a formação da placenta, e uma massa de células interna, que vai formar o embrião propriamente dito. É nessa fase que ocorre a implantação do embrião na cavidade uterina. As células internas do blastocisto são chamadas de células-tronco embrionárias pluripotentes. Elas vão originar as centenas de tecidos diferentes que compõem o corpo humano mas não possuem mais o potencial para formar um organismo completo.

A partir de um determinado momento, essas células somáticas, que ainda são todas iguais, começam a se diferenciar nos vários tecidos: sangue, fígado, músculos, cérebro, ossos etc… Que comando a célula progenitora de cada tecido recebe para determinar o que ela vai formar ainda é um mistério. Os genes que controlam esta diferenciação e o processo pelo qual isto ocorre estão sendo investigados por inúmeros pesquisadores. O que sabemos é que, uma vez diferenciadas, as células somáticas perdem a capacidade de originar qualquer tecido. As células descendentes de uma célula diferenciada vão manter as mesmas características daquela que as originou, isto é, células de fígado vão originar células de fígado, células musculares vão originar células musculares e assim por diante.

Apesar do DNA ser igual em todas as células do nosso corpo, os genes contidos nele se expressam de maneiras diferentes a depender do tecido ao qual a célula pertence. Quer dizer: o DNA e os genes são idênticos, mas a expressão gênica é específica para cada tecido. Com exceção dos genes responsáveis pela manutenção do metabolismo celular (“housekeeping genes”) que se mantêm ativos em todas as células do organismo, só funcionam nas células de cada tecido ou órgão aqueles genes importantes para a manutenção daquele tecido ou do órgão. Os outros se mantêm “silenciados” ou inativos.

Resumindo:

Células-tronco totipotentes: Têm o potencial de formar todos os tecidos bem como um novo indivíduo se inseridas em útero

Células-tronco pluripotentes: Estão na parte interna do blastocisto. Têm o potencial de formar todos os tecidos do corpo humano, mas não mais um novo indivíduo se inseridas em útero.

Células-tronco multipotentes: Têm o potencial de formar vários tecidos, por exemplo as células-tronco mesenquimais

Células-tronco oligopotentes: Têm o potencial de formar poucos tecidos, por exemplo as células-tronco hematopoéticas

Células-tronco unipotentes: Têm o potencial de formar um único tecido.

O que é clonagem?

Clonagem reprodutiva
A clonagem é um mecanismo comum de propagação da espécie em plantas ou bactérias. Em humanos, os clones naturais são os gêmeos idênticos que se originam da divisão de um mesmo óvulo fertilizado. A grande revolução da Dolly abriu caminho para a possibilidade de clonagem humana ao demonstrar, pela primeira vez, que era possível clonar um mamífero – isto é, produzir uma cópia geneticamente idêntica, a partir de uma célula somática diferenciada. Para entendermos porque esta experiência foi tão surpreendente precisamos recordar um pouco de embriologia.

Todos nós já fomos uma célula única, resultante da fusão de um óvulo e de um espermatozóide. Esta primeira célula já tem no núcleo o DNA com toda a informação genética necessária para o novo ser. No núcleo das nossas células, o DNA se organiza em pares de cromossomos e apresenta-se muito condensado. Com exceção das células sexuais — o óvulo e o espermatozóide, que têm 23 cromossomos —, em todas as outras células do corpo humano há 46 cromossomos (23 pares) em seus núcleos. As células do corpo, não sexuais, são as chamadas células somáticas.

A grande contribuição da clonagem da Dolly foi justamente a descoberta de que uma célula somática de mamífero, já diferenciada, poderia ser reprogramada ao estágio inicial e voltar a ser totipotente. Os cientistas escoceses perceberam isso ao transferirem o núcleo de uma célula somática da glândula mamária de uma ovelha para um óvulo enucleado — quer dizer, de onde tinham retirado o núcleo. Surpreendentemente, o óvulo começou a comportar-se como um óvulo recém-fecundado por um espermatozóide.

Para obtenção de um clone, o óvulo para o qual os cientistas transferiram o núcleo da célula somática foi inserido no útero de uma outra ovelha. Se desejássemos fazer clonagem humana reprodutiva, teríamos que retirar o núcleo de uma célula somática que, teoricamente, poderia ser de qualquer tecido de uma criança ou adulto, inserir o núcleo em um óvulo, e depois implantá-lo no útero de uma mulher, que funcionaria como barriga de aluguel. Se o óvulo se desenvolvesse teríamos um novo ser com as mesmas características físicas da criança ou adulto de quem foi retirada a célula somática. Seria como um gêmeo idêntico nascido posteriormente.

Já sabemos que esse processo não é fácil. Dolly só nasceu depois de 276 tentativas fracassadas. Além disso, dentre os núcleos das 277 células da “mãe de Dolly“ inseridos em um óvulo sem núcleo, 90% não alcançaram nem o estágio de blastocisto. As tentativas posteriores de clonar outros mamíferos como, camundongos, porcos, bezerros, cavalo, cachorros, gatos e até um veado, entre outros, também mostram eficiência muito baixa e uma proporção muito grande de abortos e embriões malformados.

Penta, a primeira bezerra brasileira clonada a partir de uma célula somática adulta, em 2002, morreu com um pouco mais de um mês. Ainda em 2002, foi anunciada a clonagem do “copycat”, o primeiro gato de estimação clonado a partir de uma célula somática adulta. Para chegar a isso, foram utilizados 188 óvulos que geraram 87 embriões e apenas um animal vivo. Na realidade, experiências recentes, com diferentes modelos animais, têm mostrado que a reprogramação da célula somática para um estágio embrionário, indiferenciado, que originou Dolly, é extremamente difícil.

Ian Wilmut, o cientista escocês famoso pela experiência que resultou no nascimento de Dolly, afirma que praticamente todos os animais clonados a partir de células não-embrionárias estão com problemas (Rhind, 2003). Entre os diferentes defeitos dos pouquíssimos animais que nasceram vivos após inúmeras tentativas, observaram-se: placentas anormais, gigantismo em ovelhas, defeitos cardíacos em porcos, problemas pulmonares em vacas, ovelhas e porcos, problemas imunológicos, falha na produção de leucócitos, defeitos musculares em carneiros. De acordo com Hochedlinger e Jaenisch (2003), os avanços recentes em clonagem reprodutiva permitem quatro conclusões importantes:

1) A maioria dos clones morre no início da gestação;

2) os animais clonados têm defeitos e anormalidades semelhantes independentemente da célula doadora ou da espécie;

3) essas anormalidades provavelmente ocorrem por falhas na reprogramação do genoma das células somáticas;

4) a eficiência da clonagem depende do estágio de diferenciação da célula doadora.
De fato, a clonagem reprodutiva, a partir de células embrionárias, têm mostrado uma eficiência de 10 a 20 vezes maior, provavelmente porque os genes importantes no início da embriogênese estão ainda ativos no genoma da célula doadora. (Hochedlinger e Jaenisch, 2003).

Entre todos os mamíferos já clonados, é interessante notar que a eficiência é um pouco maior em bezerros. Até o fim de 2009 já haviam sido clonados cerca de 70 bezerros no Brasil. Clonar um animal campeão é comercialmente de grande interesse. Entretanto será necessário seguir esses animais por vários anos para saber se eles serão tão normais como aqueles nascidos pelo método tradicional da união de um óvulo com um espermatozóide.

Segundo a cientista inglesa Ann McLaren, falecida em 2007, as falhas na reprogramação do núcleo somático podem vir a se constituir em barreira intransponível para a clonagem humana. Mesmo assim, pessoas como o médico italiano Antinori e a seita dos raelianos defendem a clonagem humana, um procedimento que tem sido proibido em todos os países. Em 2003, as academias de ciências de 63 países, inclusive a brasileira, formalizaram documento conjunto em que pediam o banimento da clonagem reprodutiva humana. O fato é que a simples possibilidade de clonar humanos suscita discussões éticas em todos os segmentos da sociedade: Por que clonar? Quem deveria ser clonado? Quem iria decidir? Quem será o pai ou a mãe do clone? O que fazer com os clones que nascerem defeituosos?

Na realidade o maior problema ético atual é o enorme risco biológico associado à clonagem reprodutiva. 
Apesar de todos estes argumentos contra a clonagem humana reprodutiva, as experiências com animais clonados têm nos ensinado muito acerca do funcionamento celular. Por outro lado, a tecnologia de transferência de núcleo para fins terapêuticos, a chamada clonagem terapêutica, poderá ser extremamente útil em algumas situações. Por exemplo, a transferência de núcleos entre óvulos, que já se mostrou bem sucedida em macacos (Tachibana et al., 2009) , poderá permitir que mulheres afetadas por doenças mitocondriais tenham no futuro descendentes normais (Katsnelson, 2010).

Células IPS- Induced pluripotent stem-cells
Em 2007 dois grupos independentes de pesquisadores, liderados por Shinya Yamanaka da Universidade de Kioto no Japão e James Thomson nos Estados Unidos, mostraram que seria possível reprogramar células adultas- fibroblastos retirados da pele- e fazê-las voltar ao estágio de células-tronco embrionárias, através da ativação de alguns genes. Essas células reprogramadas foram chamadas de IPS- do inglês induced pluripotent stem-cells. A técnica que foi iniciada em camundongos foi posteriormente replicada com células humanas e hoje ela já é rotina em vários laboratórios ao redor do mundo. A grande vantagem dessa estratégia é que ela não requer óvulos humanos, que além de difíceis de serem obtidos, estão associados a problemas éticos, tais como comércio de óvulos.

Essa tecnologia que substitui a clonagem terapêutica tem uma aplicação extraordinária em doenças genéticas. Não sabemos ainda se as células IPS poderão ser usadas em terapia celular mas para pesquisas elas têm um potencial fantástico. A partir da célula de um paciente com uma doença genética, é possível derivar várias linhagens celulares permitindo estudos que seriam praticamente impossíveis no ser humano. Por exemplo, por que um defeito em um determinado gene afeta um tecido e não outro? Como o gene defeituoso se expressa nos diferentes tecidos? Por que pessoas com a mesma mutação podem ter quadros clínicos tão diferentes? Além disso, as linhagens celulares derivada de células IPS permitem testar diferentes estratégias para corrigir uma mutação genética através de terapia gênica ou agentes farmacológicos.

Terapia celular: quais seriam as outras possíveis fontes de células-tronco (CT)?

A) Células-tronco do adulto: 
Existem células-tronco em vários tecidos de crianças ou adultos, as células-tronco do adulto. Por exemplo, na medula óssea, no sangue, no tecido adiposo, no fígado existem células desse tipo. No entanto, ainda estamos investigando qual é o potencial de diferenciação de células de diferentes tecidos. Não sabemos se elas irão produzir preferencialmente uma determinada linhagem celular, de acordo com o nicho de onde elas foram isoladas, ou se o tecido receptor é mais importante.

Pesquisas preliminares publicadas por pesquisadores brasileiros sugeriam que células-tronco retiradas da medula óssea de indivíduos com problemas cardíacos trouxeram melhoras clínicas (ver revisão Zatz, M, 2009). Entretanto , estudos duplo-cego com grupo controle ( onde nem os pacientes e nem os médicos sabem quem recebeu células-tronco ) mostraram resultados controversos. De qualquer modo a técnica de auto-transplante tem uma limitação maior. Ela não pode ser utilizada em portadores de doenças genéticas porque o defeito genético está em todas as células de seu corpo. Não adianta tirar a célula de um local e injetá-la em outro

B) Células-tronco do sangue do cordão umbilical e placenta:
Pesquisas não tão recentes já mostraram que o sangue de cordão umbilical é rico em células-tronco hematopoéticas que dão origem as células sanguíneas. Do mesmo modo que as células-tronco da medula óssea as do sangue do cordão umbilical podem curar pacientes afetados por leucemias, talassemias, algumas formas de anemias e outras doenças da medula. Por isso, defendemos a criação, com a maior urgência, de mais bancos públicos de cordão – semelhantes a bancos de sangue: quanto maior o número de amostras de cordões em um banco, maior a chance de se achar um doador compatível com o receptor. Por isso, a criação de bancos de cordão públicos é uma prioridade que se justifica em um primeiro momento para o tratamento de doenças sangüíneas.

C) Células-tronco do tecido do cordão umbilical
Existe uma sub-população de células-tronco chamadas mesenquimais (CTM) que têm o potencial de formar vários tecidos importantes tais como  osso, cartilagem,  tecido  adiposo e até músculo. Nosso grupo mostrou que o tecido do cordão, muito mais que o sangue, é uma fonte rica de CTM. Enquanto somente 1 em cada 10 amostras de sangue de cordão possuem CTM todas as amostras de cordão que analisamos eram ricas nessas células. Esse trabalho foi publicado em 2008 (Secco et al., 2008ª, 2008b). Mais recentemente descobrimos que o perfil das CTM obtidas do cordão também difere daquelas do sangue (Secco et al., 2009). Não recomendamos que ninguém guarde o sangue do cordão de seu próprio filho para um futuro uso. Entretanto se a pessoa está disposta a pagar por isso – mesmo sabendo que as chances de que venha a usa-lo em benefício próprio é muita pequena- então que guarde também o tecido do cordão.

d) Células-tronco de polpa de dentes decíduos: 
Pesquisas recentes têm mostrado que a polpa de dentes decíduos é rica em células-tronco adultas. Os trabalhos científicos da literatura demonstram que estas células têm capacidade de originar osso, músculo, gordura, cartilagem e neurônios, quando expandidas em laboratório (“estudos in vitro”). Nossas pesquisas corroboram com os dados da literatura, pois observamos que estas células são capazes de originar diferentes tecidos “in vitro” e de acelerar a regeneração óssea  em modelos animais (“in vivo”) [Bueno, D, tese de doutorado, 2007, Costa Mendonça et al., 2008].

Essa é certamente uma ótima notícia, pois seu uso não envolve grandes polêmicas, visto que toda criança perde os dentes de leite entre os 6 e 12 anos de idade, e portanto, o processo de obtenção das células-tronco não é invasivo. Assim sendo, se fosse estabelecido um banco de células-tronco a partir de dentes, esses indivíduos poderiam utilizar as mesmas para potencial reabilitação no futuro, pois não haveria problema da compatibilidade. Os dados da literatura e nossa experiência preliminar ainda sugerem que essas células provocam baixa resposta imunológica o que tornaria possível o uso de células-tronco entre pessoas mesmo não havendo compatibilidade do sistema imunológico, como o HLA.

Vale ressaltar, contudo, que serão necessárias pesquisas clínicas para responder a esta importante questão. Atualmente, as células-tronco obtidas da medula óssea vêm sendo utilizadas para regeneração do tecido ósseo em humanos, cujo processo de obtenção é doloroso e invasivo. Portanto os dentes decíduos são fontes promissoras de células-tronco adultas que poderão ser utilizadas no futuro.

e) Células-tronco de tecido adiposo
O tecido adiposo é outra fonte rica em células-tronco mesenquimais. Esse tecido pode ser obtido de lipoaspiração ou quando se realizam procedimentos cirúrgicos, como biopsias musculares, para diagnóstico. Um dos nossos grandes interesses no CEGH é tentar a regeneração de tecido muscular em pacientes com doenças neuromusculares. Portanto estamos procurando ativamente quais seriam as melhores fontes de CT para formar músculo. O tecido adiposo tem se mostrado uma fonte preciosa. Em um trabalho preliminar vimos que CT de tecido adiposo conseguem se diferenciar em células musculares “in vitro” e produzir distrofina, a proteína que está ausente nos pacientes com distrofia de Duchenne (Vieira et al., 2007). Em seguida injetamos essas CT em camundongos que também têm distrofia.

Tivemos outra boa surpresa. As CT humanas foram capazes de chegar ao músculo dos animais, produzir proteínas musculares humanas e até melhorar o quadro clínico(Vieira et al., 2008). Esses resultados são muito animadores. Se forem confirmados em um número maior de animais, seguidos por mais tempo, estaremos próximos de tentar essa terapia em humanos. Estas células podem também ser utilizadas para regeneração de outros tecidos como o ósseo e mesmo tecido adiposo em casos de reconstrução craniofacial.

f) Novas fontes de células-tronco
Nossa equipe também descobriu novas fontes de células-tronco. A primeira foi obtida do músculo orbicular do lábio. Os pacientes portadores de fissura lábio palatina (lábio leporino) necessitam realizar uma cirurgia corretiva para o fechamento do lábio e nesta cirurgia pequenos fragmentos do músculo orbicular do lábio são regularmente descartados. Resolvemos então, a partir destes pequenos fragmentos deste músculo, isolar células-tronco adultas.

Nossa pesquisa comprovou que estas células podem originar “in vitro” osso, cartilagem, músculo e gordura e interessantemente elas podem levar a formação de osso “in vivo” , em modelos animais (Bueno et al.,2009). Esta nova fonte de células tronco poderá ser utilizada no futuro para a realização de enxertos ósseo alveolares nos pacientes portadores de fissuras lábio palatinas, eliminando desta forma a necessidade de remover osso do próprio paciente para realização do enxerto, e abrindo novas perspectivas para a terapia celular em regeneração óssea.

Outra fonte de células-tronco foi descoberta por acaso. Trata-se da trompa de falópio, que também é descartada em cirurgias de esterilização (Jazedje et al., 2009). Estamos também pesquisando qual é a vocação dessas células-tronco na regeneração de tecidos.

G) Células-tronco embrionárias:
As células-tronco embrionárias (CTE) obtidas de embriões não utilizados e congelados em clínicas de fertilização são as únicas capazes de gerar todos os tecidos humanos. Embora estejamos pesquisando ativamente as células-tronco adultas ainda temos muito o que aprender com as CTE. Os opositores ao uso de células embrionárias para fins terapêuticos argumentam que isso poderia gerar um comércio de embriões ou que haveria destruição de “embriões humanos” — e não seria ético destruir uma vida para salvar outra.

Aspectos éticos
Apesar destes argumentos, o uso de células-tronco embrionárias para pesquisas com objetivos terapêuticos, é defendido pelas pessoas que poderão se beneficiar desta técnica e pela maioria dos cientistas. As 63 academias de ciência do mundo que se posicionaram contra a clonagem reprodutiva defendem as pesquisas com células embrionárias para fins terapêuticos.

Em relação ao problema da destruição de “embriões humanos”, novamente devemos lembrar que estamos falando de cultivar tecidos – ou, quem sabe futuramente, órgãos -, a partir de embriões e que esses nunca serão inseridos em um útero. Sabemos que 90% dos embriões gerados em clínicas de fertilização e inseridos no útero de uma mulher não geram vida. Além disso, um trabalho de Mitalipova et al. (2003) mostrou que células obtidas de embriões de má qualidade, que não teriam potencial para gerar uma vida, mantêm a capacidade de gerar linhagens de células-tronco embrionárias em laboratório e, portanto, de gerar tecidos. Ao usar células-tronco embrionárias com potencial baixíssimo de gerar indivíduos para pesquisar como regenerar tecidos em uma pessoa condenada por uma doença letal, estamos na realidade contribuindo para preservar vidas. Isso é comparável ao que se faz hoje em transplante quando se retira órgãos de uma pessoa em morte cerebral (mas que poderia permanecer em vida artificialmente mantida por mais tempo).

A descoberta das células IPS foi defendida por muitos como uma alternativa ao uso das CTE. Sabemos hoje que isso não é verdade. Elas possuem  características diferentes e porisso as pesquisas com células-tronco embrionárias continuam sendo muito importantes. Mas as células IPS derivadas de pacientes com diferentes doenças genéticas  estão possibilitando pesquisas importantíssimas. São nossas cobaias,  nossos pacientes “ in vitro”.  Temos muito ainda a aprender com essas células.
Por outro lado, também não podemos acreditar que as células-tronco vão curar todas as doenças humanas. As pesquisas que estão sendo realizadas agora serão fundamentais para responder a questões sobre o potencial das células-tronco adultas em comparação com as embrionárias e as IPS, que doenças poderão ser tratadas e quais são os benefícios e riscos da terapia celular.

Os cientistas apostam muito nas células-tronco. A esperança é que inúmeras doenças, entre elas as neuromusculares, o diabetes, o mal de Parkinson e as lesões de medula possam ser tratadas pela substituição ou correção de células ou tecidos defeituosos. A terapia celular com células-tronco representa também um grande avanço nas técnicas existentes hoje de transplante de órgãos. Se as pesquisas derem os resultados esperados, deverá ser possível no futuro fabricar tecidos e órgãos em quantidade suficiente para todos. Seria o fim das longas filas de transplante de órgãos. Do mesmo modo que trocamos peças do nosso carro poderemos substituir ou corrigir a função de órgãos com defeitos.

Além da substituição de tecidos, as células-tronco estão sendo testadas em combinação com a terapia gênica. Recentemente um grupo de pesquisadores japoneses (Kazuki et al., 2010) realizou uma experiência que ilustra essa tecnologia. Foram retiradas células da pele (fibroblastos) que foram reprogramadas, as células IPS, para serem como as embrionárias. O paciente, um menino com DMD,tinha uma deleção (perda de um pedaço) grande no gene da distrofina. A partir das células da pele foi possível reprogramá-las de modo que fossem obtidas diversas linhagens celulares que possuíam o gene defeituoso.

O próximo passo foi introduzir um gene normal nessas células contido em um chamado cromossomo artificial, um vetor capaz de carregar o gene inteiro da distrofina (que é gigantesco, o maior gene humano). O próximo passo foi verificar se as células conseguiam formar diferentes tecidos e se esses expressavam a proteína distrofina de tamanho normal. E o experimento mostrou-se um sucesso: células musculares derivadas tinham a distrofina saudável. Embora todo o experimento tenha sido feito no laboratório e ainda não “in vivo” trata-se de mais uma estratégia visando o tratamento das distrofias e de outras doenças genéticas. Ainda não podemos saber quanto tempo teremos que esperar para poder usar essa estratégia na clínica. Mas é mais um tijolinho em direção a cura.

Por outro lado, pesquisas recentes estão mostrando que o efeito benéfico das células-tronco, em particular as mesenquimais, poderia depender não da substituição de grupos celulares defeituosos  mas que elas atuariam como células medicinais sinalizadoras, secretando poderosas moléculas bioativas  modulando o sistema imune, aumentando a cicatrização , diminuindo a morte celular, estimulando a angiogênese ( formação de novos vasos) e aumentando a divisão celular nas células circundantes.

Situação brasileira
Com a aprovação pela Câmara dos Deputados da Lei de Biossegurança, no dia 2 de março de 2005, e pelo Supremo Tribunal Federal em maio de 2008, o Brasil entra na seleta lista de países do mundo em que os cientistas podem realizar pesquisas com células-tronco adultas e embrionárias e trabalhar para encontrar tratamentos para doenças genéticas até hoje incuráveis e para lesões físicas ainda irreversíveis.

Quais as pesquisas com células-tronco desenvolvidas no Centro de Estudos do Genoma Humano

a) Terapia celular
Estamos no momento comparando a eficiência e células-tronco de diferentes fontes de diferenciar-se em vários tecidos, em particular em tecido muscular e ósseo. Além disso,estamos colaborando com outros grupos para verificar o efeito de células-tronco na regeneração nervosa.


b) Obtenção de linhagens de células-tronco de pacientes com doenças genéticas 

Estamos obtendo linhagens de células-tronco de pacientes com doenças genéticas com o objetivo de testar diferentes estratégias terapêuticas bem como identificar mecanismos genéticos associados com algumas destas doenças, tais como síndromes craniofaciais e doenças neuromusculares. Em uma pesquisa recente, analisamos neurônios motores de pacientes com uma forma hereditária de esclerose lateral amiotrófica (ELA 8)  e mostramos que há diminuição de uma proteína (VAPB) nas células desses pacientes. O próximo passo é verificar se isso ocorre em outras formas de ELA  e se essa proteína poderia ser alvo de agentes farmacológicos. 

Referências:
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Mitalipova M, Calhoun J, Shin S, Wininger D et al. (2003): Human embryonic stem cells lines derived from discarded embryos. Stem cells 21:521-526

Katsnelson A (2010): Freeing human eggs of mutant micochondria. Nature online, 14 de abril

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Publicações do Centro do Genoma em células-tronco

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Mayana Zatz
Professora titular de Genética Humana e Médica
Coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e do Instituto Nacional de células-tronco em doenças genéticas
Presidente da Associação Brasileira de Distrofia muscular
Membro da Academia Brasileira de Ciências
Depto de Biologia, Universidade de São Paulo, Instituto de Biociências

Maria Rita Passos-Bueno
Professora titular de Genética Humana e Médica
Coordenadora de transferência de tecnologia do CEGH
Depto de Biologia, Universidade de São Paulo, Instituto de Biociências