Fertilização Assistida. Três é demais

Uma noticia veiculada na semana passada chocou a sociedade: pais de trigêmeas, geradas por fertilização assistida, decidiram depois de nascidas que só queriam duas. De acordo com a matéria publicada no jornal Estado de S.Paulo (2 de abril), “Funcionários de hospital contam que, durante o parto, o pai afirmou que levaria somente dois bebês. Ele chegou a escolher duas das três meninas, que nasceram prematuras e com pulmão ainda em desenvolvimento. Ao saber que uma das escolhidas precisaria de cuidados especiais, por estar mais fragilizada, teria dispensado a garota, dizendo que só queria as saudáveis”.

A fertilização assistida aumenta a chance de gestações gemelares

Para aumentar a chance de uma gravidez, é comum implantar-se mais de um embrião e com isso cresce a probabilidade de uma gravidez gemelar (artigo veja, semana passada). Mas o reverso da medalha é que isto implica também em um risco maior de nascerem crianças prematuras, com baixo peso e que podem vir a ter problemas de saúde ou comprometimento intelectual.

Por causa disso o Conselho Federal de Medicina determinou que o número máximo de embriões a serem implantados é quatro – e isso só para mulheres de mais de 40 anos – quando a chance de engravidar diminui. Concordo com essa medida. Sempre defendi a fertilização assistida e já escrevi várias vezes a respeito.

O primeiro bebê concebido por fertilização assistida, Louise  Brown, nascida em 1978 e que deu à luz naturalmente uma filha em 2007, causou inúmeras polêmicas. Mas hoje milhares de crianças já nasceram com essa técnica permitindo a casais que não conseguem reproduzir-se naturalmente a possibilidade de ter seus filhos biológicos.

O diagnóstico pré-implantação (DPI) permite evitar doenças genéticas

Essa é outra questão sobre a qual já escrevi. Recordando, o DPI possibilita a casais com alto risco de terem uma criança com uma doença genética (cuja mutação já é conhecida) selecionar embriões sem a mutação para serem implantados. Após fertilização “in vitro” é possível retirar uma célula do embrião e descobrir se ela tem ou não a mutação. Essa técnica, embora difícil, permite que esses casais selecionem embriões  sem aquele problema. Mas é importante reforçar que ninguém pode garantir ao casal um filho perfeito.

Seleção de embriões não de crianças!

Se a questão da escolha e seleção de embriões sem mutações patogênicas – em um conjunto de 8 células que não sabemos se será viável quando implantado em útero -  é questionada por algumas pessoas,  o que dirá de um bebê já nascido? Concebe-se artificialmente um bebê e depois de nascido você decide que não o quer mais, como se fosse uma mercadoria que você escolhe em uma loja? Eu só queria dois e não três? Com problema, não! Só quero saudável. E amanhã, será que não vão dizer que só querem o menino e não a menina, o quietinho e não o chorão?

Adotar uma criança não é um processo fácil

Antes de serem considerados aptos a criar uma criança abandonada, e entrar na fila de espera que pode levar anos, os candidatos a pais adotivos passam por inúmeras entrevistas. E os casais que se submetem a processos que podem resultar em gêmeos, trigêmeos ou até quadrigêmeos?

Há pouco mais de um ano,  a imprensa noticiou o caso de uma mulher nos Estados Unidos que teve óctuplos, por inseminação artificial. Essa mulher, que já tinha 6 filhos, era solteira e estava desempregada. Isto é, além do risco para os bebês, não tinha condições financeiras para criá-los. Antes de submeter-se a tratamentos de fertilização assistida, os casais, ou às vezes só a  mãe, são informados sobre as possíveis implicações decorrentes de gestações múltiplas?

Estão preparados psicologica e financeiramente para isto? Será que antes de submeter-se a uma fertilização assistida, antes de conceber filhos, esses casais não deveriam passar por avaliação semelhante a que se faz com os que desejam adotar?

Por Mayana Zatz

http://veja.abril.com.br/blog/genetica/sem-categoria/fertilizacao-assistida-tres-e-demais/